Não é preciso percorrer centenas de quilômetros longe da Capital para ter uma imersão na cultura canavieira, visitar capelas tombadas, produção de cachaças de alambique de qualidade e fazer trilhas em reservas preservadas de Mata Atlântica. É o que propõe o roteiro Paisagens e Tradições de Cruz do Espírito Santo, município localizado na área metropolitana de João Pessoa, há 25 quilômetros.
O roteiro é um produto do Programa de Roteirização do Sebrae PB, idealizado pelo agente Danylo Aguiar que intensificou, nos últimos três meses, a preparação dos lugares e capacitou moradores e empreendedores para receber o visitante. “O roteiro Paisagens e Tradições de Cruz do Espírito Santo está pronto para ser comercializado pelas agências. Elas podem oferecer completo ou desmembrar, já que há muito o que vivenciar”, ressaltou.
Representantes de agências de turismo e jornalistas de João Pessoa estiveram no município a convite do Sebrae PB. O roteiro iniciou na zona rural, visitando capelas seculares que pertenciam aos engenhos de açúcar e sobreviveram ao tempo. Isoladas em meio a canaviais, são testemunhas da história. Segundo o guia local Rafael Reginaldo, que também é cordelista, a região era grande produtora de açúcar no período da colonização e as capelas rurais, atualmente tombadas como patrimônio, resistiram. “Ainda existem aqui na região 12 capelas rurais e eram muitas, pois cada engenho tinha a moenda, a casa grande e a sua própria capela”. Visitamos as capelas de nossa Senhora da Batalha, de 1636, tombada em 1938 pelo Iphan, Santo Antônio, de 1856 e a Capela de Santa Luzia, a maior, de 1862. As capelas estão bem preservadas e possuem serviço religioso.


A região de Cruz do Espírito Santo, por ser propícia para o cultivo da cana de açúcar, sofreu invasões e teve batalhas sangrentas de portugueses contra holandeses interessados na produção dos engenhos. Durante a invasão holandesa e a expansão da Companhia das índias Ocidentais foram muitas as disputas armadas e conflitos violentos. A fé era ingrediente importante da esperança nas vitórias, que, muitas vezes, eram comemoradas com a construção de uma capela.
O roteiro sai do sagrado e vai para o profano visitar dois engenhos produtores de cachaça de alambique: O Engenho Nobre, jovem que nasceu em 2017, se caracteriza por ser um engenho gourmet de produção pequena e variada. Tornou-se conhecido nacionalmente pelo grande número de medalhas que suas cachaças ganharam em concursos no Brasil e no exterior. Quem recebe os visitantes é o proprietário Murilo Coelho, mestre destilador e que dá uma aula sobre como degustar a cachaça. A visita também inclui o guiamento nas áreas de produção e armazenamento e a degustação das cachaças Nobre Cristal, Maracatu, Arraiá, Arretada Mandacaru, Nobre Sensações, entre outras. Os blends – misturas de cachaças com envelhecimentos diferentes são o forte da marca. O Engenho Nobre é uma construção feita em adobe e também foi aprovado no edital de isenção do ICMS do governo estadual para se estruturar. Em breve vai inaugurar nova área de degustação e também um museu contando sua história e premiações.



A outra visitação para conhecer a produção de cachaça de alambique de Cruz do Espírito Santo é ao gigante e tradicional Engenho São Paulo, que foi fundado em 1909 e possui capacidade para produzir seis milhões de litros de cachaça por safra/ano. O local está aberto à visitação, passando pela área de moagem, fermentação, destilação e engarrafamento. Impressiona os enormes equipamentos, entre eles tonéis de aço e barris de madeira para envelhecimento das cachaças. O Engenho São Paulo foi o primeiro a exportar para os Estados Unidos, há mais de 30 anos, e também já iniciou uma reforma. “Estamos recebendo visitantes, contando a nossa história e o processo de produção, mas com a finalização das obras, fruto do edital de isenção do ICMS, vamos inaugurar um museu e uma área mais planejada de degustação e uma loja” afirmou Leonardo dos Anjos, um dos proprietários. O grupo de agentes e jornalistas degustou as cachaças São Paulo Cristal, São Paulo Umburana, São Paulo Abacaxi e Coco e São Paulo Mel e Limão, acompanhadas de frutas diversas. Moradoras do engenho apresentaram o coco de roda, dança tradicional da zona da mata.


O roteiro inclui ainda a natureza exuberante da região, que pode ser apreciada mais de perto com a prática de trilhas de ecoturismo. Uma delas é numa reserva protegida que exibe árvores centenárias, exemplares da Mata Atlântica. Existem diversas trilhas demarcadas e condutores treinados que fazem essa parte do roteiro, combinando com o tempo que se pretende usufruir, o tamanho e o grau de dificuldade das trilhas. Algumas finalizam com banhos de cachoeira, uma delas na cachoeira de Santa Luzia, pequena queda e que oferece água limpa, frescor e descanso para os visitantes.


“ Vi o potencial do município e a hospitalidade da comunidade, e acredito que a proximidade com a Capital e essas experiências tão ricas a uma distância tão curta de João Pessoa vão consolidar o roteiro. Algumas agências já tem datas marcadas para lançar as Paisagens e Tradições de Cruz do Espírito Santo”, finalizou o agente de roteirização do Sebrae PB, Danylo Aguiar. (Texto: Rosa Aguiar, especial para A União Fotos: Edvaldo Emanuel)
