O tempo diante das telas não pode ultrapassar um limite, e quando isso acontece, passa a comprometer outras áreas da vida e os impactos podem ser significativos para a saúde mental e o bem-estar.
Segundo Cesar Rathke, psiquiatra, médico de família, nutrólogo, e professor de Psiquiatria na Afya Ciências Médicas da Paraíba, o uso de telas passa a ser preocupante quando começa a comprometer outras áreas da vida.
“O uso é excessivo quando passa a ocupar o tempo que seria dedicado ao sono, à convivência social, à atividade física ou ao lazer sem telas, gerando sofrimento ou perda de controle. Para quem trabalha com tecnologia, a chave é a separação: o problema não está no tempo de trabalho produtivo, mas no tempo morto de rolagem infinita ao longo do dia, principalmente fora do expediente”, explica.
A hiperconectividade tem se tornado uma característica da vida moderna. Notificações, mensagens, vídeos curtos e atualizações constantes fazem com que o cérebro permaneça em estado permanente de vigilância, o que pode favorecer o desenvolvimento de sintomas emocionais e cognitivos.
De acordo com o especialista, a exposição contínua às redes sociais também pode influenciar a percepção que o indivíduo tem de si e da própria rotina. A comparação com padrões de vida idealizados e o contato permanente com diferentes estímulos podem afetar o bem-estar emocional e a capacidade de concentração.
“Há uma relação direta e cientificamente comprovada. A hiperconectividade mantém o cérebro em estado constante de alerta, elevando os níveis de estresse e ansiedade. O excesso de estímulos e a comparação constante com a vida ‘perfeita’ dos outros também alimentam sintomas depressivos, irritabilidade e uma profunda dificuldade de manter o foco nas tarefas do dia a dia”, destaca.
O impacto dos conteúdos rápidos – O consumo frequente de vídeos curtos, feeds infinitos e conteúdos produzidos para prender a atenção por poucos segundos também tem consequências importantes para o funcionamento cerebral. Isso acontece porque essas plataformas estimulam mecanismos de recompensa que favorecem a busca constante por novos estímulos.
“Conteúdos rápidos liberam pequenas doses rápidas de dopamina, o neurotransmissor da recompensa. O cérebro se acostuma a essa gratificação instantânea e se cansa, pois precisa processar um volume gigantesco de informações superficiais em pouco tempo”.
Segundo o psiquiatra, esse processo pode tornar atividades que exigem atenção prolongada cada vez mais difíceis. “Como resultado, tarefas que exigem esforço prolongado e paciência, como ler um livro ou trabalhar em um projeto complexo, tornam-se exaustivas e difíceis. Isso vai transformando o comportamento, desorganizando o funcionamento e reduzindo a capacidade de lidar com o cotidiano, além de tornar o indivíduo pouco resiliente e refém de doses constantes de alívio e prazer”, acrescenta o psiquiatra.
Sinais de alerta – Embora muitas pessoas utilizam telas durante boa parte do dia, alguns comportamentos podem indicar que a relação com a tecnologia está se tornando prejudicial. Entre os principais sinais de alerta apontados pelo psiquiatra estão:
- Sensação de frustração ou vazio após usar o celular;
- Irritabilidade ao ficar sem internet ou ser interrompido;
- Necessidade constante de verificar o aparelho, mesmo sem notificações;
- Procrastinação frequente;
- Prejuízos ao sono;
- Desinteresse por atividades presenciais e convivência social;
- Aumento progressivo do tempo de uso das telas;
- Redução do tempo dedicado a estudos, exercícios físicos e autocuidado.
Quando esses sinais passam a comprometer o desempenho profissional, os relacionamentos ou a saúde física e emocional, é importante reavaliar os hábitos digitais e buscar estratégias para recuperar o equilíbrio.
Sono prejudicado – O período da noite merece atenção especial. O uso de celulares e outros dispositivos antes de dormir interfere diretamente nos mecanismos naturais do sono e pode provocar uma série de consequências para a saúde mental.
“A luz azul emitida pelas telas inibe a produção de melatonina, o hormônio do sono, enganando o cérebro e fazendo-o achar que ainda é dia. Além disso, a hiperestimulação, causada pela luz, cores, diversos conteúdos e sensações de prazer, acelera o cérebro à exaustão”, explica Cesar Rathke.
O especialista ressalta que notícias estressantes, mensagens e demandas profissionais fora do expediente também dificultam o relaxamento necessário para uma boa noite de descanso. “Essa incapacidade de se desconectar impede o descanso mental necessário para o cérebro limpar as toxinas do dia e consolidar memórias, prejudicando diretamente o humor e a capacidade mental”.
Entre as principais recomendações de Cesar Rathke estão:
- Utilizar ferramentas de monitoramento e controle do tempo de tela;
- Estabelecer horários e ambientes livres de tecnologia;
- Evitar o uso do celular antes de dormir;
- Desativar notificações não essenciais;
- Buscar atividades de lazer sem telas;
- Reservar momentos do dia para descanso mental e contato com o ambiente ao redor.
“Nosso cérebro não foi projetado para hiperestimulação com doses frequentes de dopamina. Respeite sua biologia e a melhora virá”, conclui o especialista.
