Ele é pesquisador e autor de livro sobre o tema

Dia 13 de setembro comemora-se o Dia Nacional da Cachaça, a bebida genuinamente brasileira, nascida na colonização e cercada de história, que durante muito tempo foi marginalizada e agora atinge um novo ciclo. Nosso bate papo é com o doutor em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba, Luciano Albino, professor do Mestrado em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. Ele é autor do livro “Engenho de cana de açúcar na Paraíba: por uma sociologia da cachaça”, lançado pela editora da UEPB.

. O seu livro fala sobre a cultura da cachaça, as transformações, e os engenhos da Paraíba. Coo surgiu?

– O livro é resultado da minha tese de doutorado. Eu acompanhei o processo de modernização da produção da cachaça, a partir dos anos 1990. Na minha época, a cachaça era desqualificada, era a bebida do bebum. Verificou- se que, em outros estados como Minas, Rio e São Paulo, já havia uma mudança. E os produtores da Paraíba investiram em melhorias, condições de produção e na imagem da cachaça, que enates estava ligada a pornografia, e passou a ser ligada ao regional, ao bucólico, ao puro, ao limpo, ao que deve ser apreciado. A bebida deixa de ser aquela que é fruto de intoxicação para ser uma bebida refinada, para apreciadores que sabem beber conscientemente.

. O senhor fala até do surgimento de um novo ciclo da cana de açúcar…

– Sim. Como estudioso de José Lins do Rêgo, eu faço uma análise na obra e no ciclo da cana de açúcar, onde a cachaça era um subproduto que nem aparecia. A cana de açúcar na Paraíba sempre foi foco de conflitos, escravidão, ligas camponesas, relações trabalhistas conflituosas nas usinas. A cana de açúcar tem sobre si uma história contraditória. Quando falo em novo ciclo da cana de açúcar me refiro a outro nível de empresários.

. A cachaça mudou até que ponto?

– Observamos uma ressignificação simbólica com a reestruturação do processo produtivo. Não temos mais a papuda, a que dá ressaca, que embriaga fácil. Temos um processo que separa a cabeça, o coração e a cauda, novas embalagens, todo o processo. Mas antes de ser uma mudança tecnológica foi uma mudança cultural. Não é mais uma bebida que causa vergonha. Continua cachaça mas se transformou. Existem selos, referências legislativas, preocupação com a qualidade. Uma mudança que aconteceu numa bebida secular. Esse processo de mudança é o que me interessa do ponto de vista antropológico.

. A bebida brasileira está alcançando o seu lugar?

– A cachaça é uma referência de identidade. Ela é apreciada por quem se sente familiarizado, pelo rico, pelo pobre. Se falar em Brasil, tem que falar na cachaça, que é genuinamente brasileira.