Valorizar a identidade como nação é primordial

Uma amiga me questionou que, se somos todos iguais, por que é preciso cotas para negros em escolas e empregos?

Como diria o jornalista e escritor Laurentino Gomes, se você quiser entender o Brasil, tem que compreender o que foi a Escravidão aqui, tema da renomada trilogia assinada por ele.

Se olharmos sem muito esforço, vamos constatar que os negros são maioria entre os mais pobres, entre os menos escolarizados, são maioria morando em favelas, são maioria nos empregos que pagam menos, são maioria nos presídios. A pergunta é: por quê?

Pesquisadores afirmam que o Brasil recebeu, entre 1550 a 1855, cerca de quatro milhões de pessoas negras escravizadas da África. Outros afirmam que foram bem mais, e eles vieram, sobretudo, da Nigéria, Daomé, Costa do Marfim, Congo, Angola e Moçambique, resultado de um comércio feito por contrabandistas, e que, logo tomou proporções transatlânticas. Os escravizados foram trazidos exclusivamente para trabalhar na produção de açúcar, tabaco, café, algodão, mineração e trabalho doméstico.

A economia do Brasil Colonial foi essencialmente baseada no trabalho de escravizados, que tinha uma jornada de até 16 horas ao dia. Eles dormiam  amontoados, não tinham alimentação digna e eram submetidos a castigos e torturas, como o famoso tronco onde eram amarrados a açoitados. As negras domésticas eram estupradas e serviam de amas de leite. Sem direitos de espécie alguma, nem mesmo a professar sua religião e cultura, assim se fez o Brasil dos primórdios.

Depois de quase 400 anos de escravidão – com luta dos negros em diversas revoltas, quilombos, ações dos abolicionistas e até da família real (os produtores agrícolas diziam que a abolição ia quebrar o país), o Brasil foi o último a abolir essa prática cruel, em 1888.

Novas perguntas: os negros quando ganharam a liberdade tiveram um subsídio para começar a viver dignamente? Não. Tiveram um programa de moradia? Não. Tiveram, ao menos, emprego? Não. Os negros foram deixados à própria sorte, sem nenhuma política para eles, marginalizados. O governo estimulou a imigração e o trabalho foi ocupado pelos imigrantes da Europa, na maioria italianos.

O Brasil não poderá ser uma grande nação enquanto não reconhecer o valor do povo negro e sua contribuição para a formação do nosso país. Sim, é disso que se trata o Dia da Consciência Negra. Estamos melhorando como Nação, com leis fundamentais e ações importantes que dão aos negros e negras brasileiros as mesmas condições de todos, reconhecendo a dívida do país com aqueles cujos ancestrais foram escravizados e seus descendentes abandonados. Esse  reconhecimento é absolutamente necessário e urgente, e há governos que são conscientes disso.

Mas é preciso que os brasileiros também tenham essa consciência, que saibam que a nossa identidade nacional é formada por eles, pelo legado deles, que somos todos nós. Dizem que não há brasileiro sem sangue negro das veias, seja lá de quê cor você for. (Rosa Aguiar)