Ela fala sobre a importância da valorização do ingrediente local num bate papo em duas edições

“Há uma certa resistência dos nossos chefs em utilizar os nossos ingredientes, um  certo desprezo com o ingrediente do Brasil” A afirmação é da embaixadora da Paraíba na gastronomia, vencedora do Prêmio Dolmã 2022, a cozinheira e chef campinense Eliane Régis. Com um extenso currículo, ela conhece como poucos os biomas brasileiros: esteve à frente da Cooperativa Central do Cerrado, que atua com uso sustentável da biodiversidade, esteve no Parque do Xingu para registrar a gastronomia da aldeia Kkatxi, e foi uma das representantes do Brasil no Congresso Internacional de Slow Food Terra Madre, em Turim, na Itália. Na entrevista a jornalista Rosa Aguiar, ela fala sobre a importância dos ingredientes locais, valorização das feiras, cooperativas, e o trabalho que vem fazendo nos municípios da Paraíba.

. – Como começou o seu amor pela gastronomia?

.Sempre gostei da área gastronômica e sempre fui encantada com as panelas. Eu ajudava minha mãe e minha avó. Nós morávamos em sítio, na área rural de Campina Grande. A gente usava fogão a lenha. Fiz o primeiro curso para aplicar, de alguma maneira, a comida local, para valorizar a comunidade local Fiz minha inscrição, o processo seletivo e em duas semanas, tudo mudou. Foram dois anos e fiquei maravilhada, participei de tudo.

– Você é adepta do movimento slow food, fala um pouco sobre ele.

.Dentro desse primeiro curso de formação eu fui apresentada ao movimento Slow Food, que tem como objetivo promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente. E antes de concluir minha formação, já fui convidada para trabalhar como chef de cozinha numa cooperativa da central do cerrado: uma ponte entre as comunidades tradicionais da agricultura familiar, artesãos e a cooperativa.

– Qual a importância das cooperativas na produção de ingredientes locais?

. É graças as cooperativas que temos no mercado produtos como coco catolé, côco licuri, coco babaçu, coco macaúba, babaçu, farinha de jatobá, entre tantos, o artesanato regional e indígena. É preciso utilizar também, além dos ingredientes, a arte dos artesãos, pratos, panelas, abanos, colher de pau. Temos comunidades e pessoas fantásticas aqui na Paraíba como  Chã da Pia, a Isabel do Quilombo de Pombal, Dona Nevinha, de Itabaiana, são várias. É preciso mostrar e utilizar o que elas produzem para que essa arte não caia no esquecimento.

– Você ganhou o Oscar da Gastronomia, o Prêmio Nacional Dolmã 2022, na categoria estadual. O que significou ?

. Essa honraria não foi apenas minha. Sou apenas uma representante dos que vivem nos bastidores e produzem esses ingredientes tão preciosos, mas que não tem vez, nem voz É importante dizer que esse prêmio é de todos que produzem o alimento para que eu possa transformar em preparos. Quero que as pessoas entendam que é preciso uma equipe boa, com ingredientes preciosos, então, o prêmio Dolmã é para todos os envolvidos. 

– Percebo que os ingredientes paraibanos não são muito usados na gastronomia daqui. Parece que os de fora são sempre melhores.

. O que falta é valorizar os nossos ingredientes locais. Eu sei que há lugares que valorizam nossos produtos locais, mas sinto falta de mais. Necessitamos de mais. Temos aqui cajá, jatobá, umbú, tantos ingredientes incríveis, e sinto falta que esses elementos estejam presentes nos nossos cardápios. Engana-se quem acha que esses ingredientes simples não podem fazer parte de alta gastronomia. Eu posso sim, adicionar ao molho bechamel algo que é nativo, que é local, basta ter criatividade. Vejo que falta essa valorização e o respeito com o ingrediente local, um olhar cuidadoso com os nossos ingredientes. Há uma certa resistência dos nossos chefs em utilizar os nossos ingredientes, um  certo desprezo com o ingrediente do Brasil. (Acompanhe a parte 2 da entrevista, que será publicada dia 20.04)