Ela lança o livro Anayde Beiriz – a última confidência

Valeska Asfora, mestre em políticas públicas, educadora e produtora cultural lança o primeiro livro:  Anayde Beiriz – a última confidência. Um trabalho de pesquisa que, segundo ela,  buscou ir além  das considerações costumeiramente feitas  acerca dessa personagem histórica. “Anayde Beiriz é um nome que ressoa na memória da Paraíba e desperta curiosidades sobre sua trajetória. É uma curiosidade que alguns respondem com suposições, por haver lacunas em sua história, ausência de documentos e poucos depoimentos de quem viveu em sua época. Sendo assim, a figura de Anayde foi reproduzida a partir do imaginário, criando-se vários perfis, ou podemos dizer várias personagens, a partir de seu nome atribuindo-lhe fatos que não correspondem à realidade. Então, para mim, há muito surgia a vontade de saber mais sobre essa mulher que se tornou um nome representativo de uma grande parcela das mulheres paraibanas, sobretudo das feministas, educadoras, escritoras e poetas, onde me incluo” afirma Valeska, neste entrevista exclusiva. A conclusão da pesquisa, edição e publicação do livro foi realizada com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. Lei Federal no 14.017/2021 e suas alterações.Apoio: Secretaria de Estado Cultura/Governo do Estado da Paraíba Edital Prêmio Parrá/Paraíba, 2022. O livro será lançado nesta sexta, 1 de julho, às 19h na sala Vladimir Carvalho, na Usina Cultural Energisa.

1. Como surgiu o interesse por Anayde Beiriz?

            A biografia que trata da vida de Anayde é escassa, e em minha busca inicial por informações tive acesso a apenas três livros que, confesso, não trouxeram respostas as minhas perguntas: quem foi de fato Anayde Beiriz? Qual foi na verdade o seu papel no caso do assassinato do presidente João Pessoa? O que escrevia, de que forma, onde? O que pensava e como se posicionava no contexto social e histórico de sua época?

A partir de 2007 passei a integrar um movimento que reunia jornalistas, intelectuais, historiadores, cientistas sociais e artistas, chamado Movimento Paraíba capital Parahyba- ao qual muitos se referiam como sendo uma ação inconsequente de tentativa de mudar o nome da capital e que, na verdade, consistia em grupos de estudos e forum de debates sobre a História da Paraíba e a identidade de seu povo. Nas reuniões semanais do movimento, era grande a circulação e chegada de documentos históricos, de depoimentos, livros, estudos acadêmicos, aos quais tive a sorte de ter acesso. Mas, percebi ainda mais fortemente que em todo material, quando citado, o nome de Anayde surgia como coadjuvante nos fatos que culminaram na tragédia do Café Glória, e em uma repetição, quase um slogan, de ser ela “uma mulher a frente de seu tempo” e de atribuir-lhe como grande mérito o fato de usar “cabelo no estilo a la garçonne, batom vermelho e saia curta.” – o que de fato era uma atitude de coragem para uma mulher que vivia na provinciana Parahyba da década de 1920, mas não poderia ser apenas isso.

Em 2008 criamos o Coletivo Cultural Anayde Beiriz, que reunia alguns artistas da cidade, e no lançamento do Coletivo, tive a grata oportunidade de conhecer a família de Anayde Beiriz, e de através de sua sobrinha, Ialmita Beiriz, ter acesso a alguns poucos documentos que me diziam mais sobre quem foi essa mulher. A partir desses documentos – cartas de amor e um questionário, já conhecidos e publicados, comecei a minha pesquisa, de início apenas para trazer respostas as minhas perguntas, sem intenção de publica-la. Por um longo tempo guardei o que consegui reunir e só em 2021 resolvi retomar, concluir esse trabalho e publica-lo, uma vez que reconheci a importancia de compartilhar o pouco mais que encontrei. E gosto de dizer, me referindo ao que encontrei, sobre a “nossa Anayde Beiriz” em contraponto a outro título que lhe atribuem de ser a “nossa Pagu”.  

 2. Quais foram os principais objetivos do livro?

Os objetivos do livro vieram bem após os objetivos da pesquisa que, como falei anteriormente, empreendi muito mais por uma curiosidade minha. Mas na medida em que fui avançando nesse trabalho, primeiro me veio a ideia de publicar uma plaquete reunindo contos e poemas que encontrei, talvez inconscientemente como uma vontade de ver concretizado o que certamente haveria de acontecer não fosse a morte prematura de Anayde Beiriz, o seu livro publicado, ou talvez muitos outros enquanto pudesse viver. Infelizmente, é tão escasso esse material que não seria possível uma publicação.

Na busca por esse material de sua produção literária fui encontrando outras informações, e de posse delas, me veio de forma determinada a obrigação de publica-las, dessa forma cumprindo o papel social de quem escreve, e deixando a minha contribuição para tanta gente – e agora percebo que muito mais do que eu poderia imaginar, que deseja, de forma justa, conhecer um pouco mais dessa mulher que, de fato, tem uma importância enorme para todas nós mulheres e também na esperança de  que as novas gerações saibam que nossa história não foi construida apenas por homens cujos nomes estão em todos os livros, e que existiu uma mulher chamada Anayde Beiriz – poeta, professora, escritora que teve a coragem de enfrentar as regras impostas pela tradicional sociedade paraibana, escolhendo ser quem ela queria ser.

3. O que você destaca sobre Anayde que considera importante no seu livro?

Em um livro que tem um conteúdo de pesquisa sobre uma personagem histórica é  quase inevitável realizar uma abordagem de acordo com a leitura dos fatos a partir do conhecimento e da interpretação do(a) autor(a). Eu considero importante no livro que estou lançando o espaço dado ao que poderíamos considerar ser a voz da própria Anayde, presente nas suas cartas, no questionário onde fala sobre suas preferências e opiniões acerca de vários temas, na sua carta de despedida e bilhete para os irmãos. Tive o cuidado, embora seja uma tarefa difícil, em não me desdobrar em minhas interpretações, imaginação ou opinião sobre os fatos.

Outro aspecto importante é a descoberta de que Anayde participava de um grupo de articulação de escritores, jornalistas e poetas das regiões Norte e Nordeste, denominado Associação dos Novos, que buscava seguir as diretrizes do movimento modernista mas colocando em relevancia os valores culturais dessas regiões. Entre os integrantes da Associação havia apenas duas mulheres: a poeta Brites Mota de Manaus e Anayde Beiriz da Paraíba. Esse fato me leva a supor que foi através dessa articulação que publicou seus contos e poemas em jornais e revistas de Pernambuco, Belém e Rio de Janeiro.

 4. Na sua opinião quais motivos levaram Anayde ao suicídio?

O suicídio de Anayde Beiriz talvez possa ser considerado como a sua atitude de assumir a própria morte, que poderia ter acontecido de outras formas. São suposições com base na História da Paraíba, da Revolução de 1930 e dos fatos narrados por quem viveu aquele período, porém não fora da realidade, ou absurdas. Como poderia continuar vivendo uma mulher que já era vítima de tantos preconceitos, e então considerada, de forma equivocada, como o principal motivo do assassinato do presidente João Pessoa?

Em carta de despedida que deixou para a sua mãe e que consta do arquivo do Inquérito sobre a sua morte, Anayde declara não ter mais força para continuar resistindo e que “mataram-lhe o amor, a crença, a esperança, a felicidade.”  Considero a sua carta como sendo a resposta dada a essa pergunta que permaneceu como uma incógnita desde 1930.