Adriana Guimarães, do Jardim das Margaridas, fala sobre sustentabilidade
Entrevistas

Adriana Guimarães, do Jardim das Margaridas, fala sobre sustentabilidade

Está mais do que na hora de mudar posturas frente ao consumismo

Rosa Aguiar Rosa Aguiar
27/05/2020 14:44:14

Adriana Guimarães é psicóloga de formação. Depois que ser convidada para ser sócia de um brechó ela descobriu que esse universo era muito maior do que  imaginava. Atualmente é uma expert em sustentabilidade e fala com muita propriedade sobre o assunto. Ela é dona do Jardim das Margaridas, um dos primeiros brechós de João Pessoa que não vende apenas roupa, mas faz as pessoas mudarem suas posturas. Nesse bate papo Adriana fala sobre os impactos da produção de roupas na natureza, reutilização, mudança de posturas e pós pandemia. "A indústria da moda fast fashion mantém uma fórmula que combina o consumo desenfreado com a exploração da mão de obra".

. Como tudo começou?

- Fui a primeira cliente do Jardim das Margaridas, quando ainda funcionava em um apartamento de uma amiga, idealizadora do projeto. Meses depois fui convidada para ser sócia (era meados de 2016). Quando eu entrei para tocar esse projeto, senti imensa necessidade de pesquisar a respeito de todo esse universo que estava por trás dessa cadeia do reaproveitamento. O conhecimento que fui adquirindo me despertou inquietações sobre uma infinidade de coisas que poderiam ser feitas, muito além de vender roupas usadas. Percebi  que poderia servir como instrumento de transformação na vida das pessoas, e dessa maneira foi ficando cada vez mais evidente a minha vocação. Essa narrativa começou há 4 anos com o Brechó Jardim das Margaridas; nos anos seguintes vieram o guarda-roupa compartilhado Cultive, o Clube de Trocas de Livros, o Clube da Biju, o Espaço Colaborativo e o incentivo a doação e reutilização de sacolas. Atualmente, a conexão desses projetos transformou-se no que hoje chamamos de “Ecossistema Sustentável”, através do qual disseminamos as novas práticas de consumo, atitudes ponderadas e mais conscientes, apresentando à nossa comunidade uma nova visão diante de tudo que já existe. Muito além de roupas (que foi o gatilho inicial), é possível fazer uma grande virada no modelo atual; é compartilhando ideias e novas perspectivas de comportamento diante do ato de consumir, usar, e agir, que o nosso negócio avança e fomenta o reaproveitamento de tudo que já existe.


- Nós sabemos que a indústria têxtil é muito poluente. Fala um pouco dos dados sobre isso.

. O fast fashion é marcado pela efemeridade, onde a cada estação o sistema de moda apresenta novas peças, essas com novas cores, formas, materiais, tudo com um ciclo de vida curto, afim de deixar espaços para as novas propostas que virão na estação seguinte. A moda caracteriza-se por seguir tendências,  o que vai acarretar num ciclo de vida programado, que impõe o descarte rápido e precoce dos produtos, que podem estar ou não em bom estado, mas deixam de “estar na moda”. Esse sistema de moda marcado pelo consumo desenfreado e pela efemeridade, acarreta consequências negativas para o meio ambiente. Muitas vezes as pessoas não percebem que desde a produção até o descarte, as peças passam por muitas etapas que envolvem o gasto e desgaste de recursos naturais, e esses recursos são finitos.

- Quais os recursos necessários para se produzir uma peça de roupa?
. A indústria da moda é a terceira mais poluente do planeta, perdendo apenas para petróleo e agropecuária. O algodão, uma das fibras mais utilizadas na moda, representa apenas 3% da lavoura global, mas consome incríveis 25% de todo pesticida produzido no mundo. Esse uso exagerado de produtos químicos gerar profundos problemas, desde degradação do solo, mortes ou danos permanentes na saúde de quem trabalha no campo e contaminação das águas. Em outro extremo, temos o Poliéster, que embora não use pesticidas para sua produção, é uma fibra que pode levar até 300 anos para se decompor e é responsável por lançar micro partículas plásticas nos rios e oceanos a cada lavagem. Entre desenvolvimento de tecidos, produção e descarte, a indústria da moda demanda muitos recursos naturais como água e solo, utiliza diversos produtos químicos e energia para produção das peças e gera toneladas de lixo têxtil – que em muitos casos levam centenas de anos para se decomporem.

- A indústria da moda fast fashion está ligada, muitas vezes, até ao trabalho escravo. Não há muita transparência no processo do fabrico e da distribuição...
. A indústria da moda fast fashion mantém uma fórmula que combina o consumo desenfreado com a exploração da mão de obra O problema das relações e das condições de trabalho tem grande realce na indústria do vestuário, em geral. Grandes empresas com atuação internacional costumam contratar a produção em países ou regiões de baixos salários e escassa organização operária, não raramente sob condições políticas ou governamentais que representam dificuldades para os trabalhadores. Direitos básicos são desconsiderados com frequência, o que se reflete em situações bastante precárias nos ambientes de trabalho, com repercussões inevitáveis no cotidiano dos envolvidos. Em diferentes circunstâncias, a mão de obra imigrante participa da produção de vestuário nesses termos. Saídos de locais onde as possibilidades e perspectivas pouco ou nada significam e sinalizam de positivo, esses trabalhadores costumam ser atraídos pelas promessas de aliciadores. A penúria vivenciada na origem é de tal ordem, em muitos casos, que a decisão de migrar ocorre sem muito titubeio. Mas já ao aceitar a proposta de trabalho o migrante assume, praticamente, uma primeira dívida, referente ao valor da passagem. Chegando ao destino, fica claro que as condições diferem muito do que foi prometido. Beira-se, ao menos em alguns casos, a condição análoga à de trabalho escravo.

. Qual a história do Jardim das Margaridas?

- O Brechó Jardim das Margaridas existe desde o ano de 2015; é um empreendimento que busca incluir uma cultura sustentável e inteligente no mercado. A idéia não foi apenas criar um brechó para vender peças de roupas usadas, mas acima de tudo, criar um ambiente onde as pessoas  participem de uma experiência única através de práticas mais conscientes e com menos apego. Existem muitas maneiras de levarmos um estilo de vida mais correto ambientalmente; e nós estamos preocupadas em assumir essa responsabilidade. Basta entendermos que tudo tem consequência, que toda ação gera um impacto. Não é preciso ser um governante para ter espírito de dono pelo mundo em que vivemos, só é preciso viver no mundo. Esse é um dos diferenciais do Brechó Jardim das Margaridas e do Cultive moda compartilhada: acreditamos que somos todos capazes de construir uma sociedade mais sustentável e com responsabilidade social; e é dessa maneira que queremos impactar positivamente cada pessoa que se dispõe a conhecer nosso espaço.
 
- E do Cultive?

. Com a experiência adquirida no Brechó JM, em 2018 sentimos a necessidade de expandir a atuação no mercado do consumo consciente; e nesse mesmo conceito, inauguramos em 2019,  o primeiro guarda-roupa compartilhado da Paraíba - o Cultive Moda Compartilhada, uma rede de empréstimos que funciona como uma biblioteca de roupas. A usuária terá acesso ao nosso acervo, que conta com mais de 300 peças, e através de uma assinatura mensal que não exige fidelidade, ou seja, faz a assinatura apenas no mês que o serviço lhe for útil.  O Cultive surgiu para ser a extensão do guarda-roupa que a cliente já tem em casa; uma forma de não repetir looks e variar o estilo sempre, sem maltratar o bolso nem o meio ambiente. 


- Como você vê o crescimento de brechós em João Pessoa? Esta acabando o preconceito?

. Quando iniciamos as atividades, em 2015, existiam pouquíssimos brechós aqui na cidade. Essa cultura de reutilizar ainda não era disseminada por aqui, e as pessoas tinham a resistência. O que, na verdade, acompanha o nome “Brechó” desde o seu surgimento, no mercado das pulgas. Nós fizemos um trabalho educativo em nossa comunidade, apresentando uma nova realidade desse segmento que a maioria das pessoas ainda não estava acostumada. Mas hoje a realidade  é completamente diferente e a aceitação torna-se a cada dia mais natural. Os brasileiros têm cada vez mais buscado comprar em brechós. As motivações para a compra de itens usados são utilitárias, hedônicos ou socioambientais, dependendo se a pessoa deseja economizar ou ter algum ganho, ter satisfação na compra de algo raro ou estender o ciclo de vida da roupa. São essas situações que contribuem para o avanço do mercado. De acordo com o Sebrae nacional, nos brechós o consumidor economiza até 80% em relação a produtos novos. Algumas roupas podem não ter mais utilidade para determinada pessoa; estar fora de moda ou não combinar mais com determinado estilo; pode ter apenas enjoado do produto ou, simplesmente não mais caber em sua casa; são diversas as motivações para encontrar um novo dono. É nesse momento que o nosso negócio se dispõe como parceiro - beneficiando as pessoas, a comunidade e o planeta.

- Você acha que depois dessa pandemia as pessoas ficarão mais conscientes?

Eu acreito que as  lojas de artigos de segunda mão irão crescer ainda mais no mercado do futuro.A busca por alternativas sustentáveis tem crescido, seja dentro das empresas ou por parte de governos, que está tratando a temática como uma oportunidade de negócio e, simultaneamente, como caminho para a sobrevivência. Segundo matéria divulgada na Revista Veja (2010, edição especial de sustentabilidade), o assunto ganhou visibilidade no século XX, mas somente agora, o “problema” tomou proporções maiores, e com a pandemia do Covid19 corrobora para que o mundo se mobilize de forma a conciliar esse conceito com uma nova relação de consumo. 

- A loja está fechada. Está planejando alguma novidade para pós pandemia?

. No inicio da quarentena não apenas fechamos a loja física como também decidimos não oferecer vendas online. Partimos do entendimento de que, nesse momento de pandemia, as pessoas não estão interessadas em comprar roupas, até porque poucas estão saindo de casa. Muitas pessoas tiveram redução salarial, foram demitidas ou estão na incerteza de como será o futuro. Muitas empresas continuaram, e precisamos continuar mesmo, pois é uma questão de sustentabilidade do negócio. Entretanto ,temos uma visão de vida e de mundo bem particular; servimos como instrumento de transformação na vida das pessoas, o nosso trabalho é voltado para novas práticas e atitudes mais conscientes, e assim tomamos essa atitude. Aproveitamos esses dois meses para trabalhar em um projeto inovador que já estava sendo idealizado desde o ano passado. Essa pausa nos deu fôlego para darmos andamento. Mais uma vez traremos para João Pessoa uma iniciativa pioneira e criativa conectada com uma moda mais justa, ética e acessível a todos. Estamos trabalhando intensamente para que tudo esteja preparado na nossa volta. O mundo mudou, e novos modelos de negócios precisam surgir ou se adaptar com uma nova realidade.


Adriana Guimarães - @jardimmargaridas

FONTE: Rosa Aguiar

Rosa Aguiar
Rosa Aguiar
Jornalista
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