Entrevista com professor Lúcio Flávio sobre a guerra do Paraguai
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Entrevista com professor Lúcio Flávio sobre a guerra do Paraguai

Ele se prepara para lançar livro sobre o general Solano Lopez

Rosa Aguiar Rosa Aguiar
04/03/2020 16:47:40

Lúcio Flávio Vasconcelos é professor de História da América Latina e Estados Unidos da Universidade Federal da Paraíba, tem mestrado em História Econômica e doutorado em História Social, ambos pela USP. Está se preparando para o lançamento de seu novo livro, a biografia histórica de um dos personagens mais emblemáticos da guerra do Paraguai “Solano López: poder, paixão e fúria na Guerra do Paraguai”.  Para ele “ o Brasil teve uma ação imperialista de anexar territórios muito mais efetiva do que os Estados Unidos. Daí a mágoa profunda dos países vizinhos”.


. O Paraguai tem muita mágoa do Brasil. Explica isso.

- O Solano Lopez é muito cultuado como um herói nacional e eles tem uma mágoa profunda do Brasil devido a política expansionista do Brasil, que foi  muito agressiva. O Brasil fez muitas guerras contra os países vizinhos, no século 19: invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina e destituiu o presidente, prometeu guerra em 1854 contra o Paraguai e, dez anos depois, teve a guerra do Paraguai. O Brasil teve uma ação imperialista de anexar territórios muito mais efetiva do que os Estados Unidos. Daí a mágoa profunda dos países vizinhos.

. E foram ações violentas...
- Sim, extremamente violentas. Eram tropas que invadiam os países, se aliavam a políticos locais, e favoreceu a derrubada de governos, destituiu o presidente da Argentina, destituiu o presidente no Uruguai e, na guerra do Paraguai, uma das exigências era que o presidente, Solano Lopez e a família,  abandonassem o país. Não era apenas vencer a guerra. A ação brasileira foi extremamente violenta com seus países vizinhos.

. Aqui Solano López é um ditador e lá, um herói. Fala um pouco sobre isso.
- Na historiografia oficial brasileira tem uma tradição dos militares que participaram da guerra do Paraguai e eram os mesmos que fizeram a República. Essa versão deles diz que o Paraguai era um país agressivo e que o presidente Solano Lopez era um transloucado, que queria anexar o território brasileiro e transformar numa potencia regional. Isso durou até 1979, quando, na abertura, final da ditadura militar, um livro de João José Chiavenatto,  “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai” , dá uma versão completamente diferente. Para ele, o regime de Solano López favorecia os pobres e queria se transformar O Paraguai numa potencia regional, mas  teve que enfrentar o imperialismo inglês,  e da Argentina e do Brasil. É um texto muito bem fundamentado,  mas que coloca o Paraguai como uma Cuba, e não é bem assim. A Inglaterra não teve  influência direta na Guerra do Paraguai. O que estava acontecendo era a formação dos estados nacionais. O Paraguai, a Argentina e o Brasil estavam disputando territórios e a abertura dos rios para a navegação. O Brasil, com essa prática intervencionista, em 1864, estava com o exército brasileiro dentro da Paraguai.

. Como começou a guerra ?
- Quando o Brasil invadiu o Uruguai a diplomacia paraguaia analisou que eles seriam os próximos, e cometeu um erro: invadiu o Mato Grosso, no Brasil e a província de Corrientes, na Argentina. Abriu duas frentes de combate, achando que invadindo os dois países ao mesmo tempo, haveria um acordo de paz, de dividir território. Mas acontece uma reação brasileira, e a Argentina, Brasil e Uruguai se unem. A grande questão é econômica,  de acesso as rios.  Dom Pedro II, na verdade, tinha uma faceta autoritária e,  no acordo secreto da Tríplice Aliança,  a guerra só terminaria se o presidente do Paraguai fosse destituído, o exército deixasse de existir e a principal fortaleza fosse totalmente destruída.

. Foi um massacre na população paraguaia...
- Sim, mais de cem mil homens foram mortos, só paraguaios, e foi uma dizimação quase que completa da população masculina do Paraguai e uma grande perda de território.  Foi a mais longa, mais sangrenta e mais destrutiva guerra que a América do Sul participou. Uma guerra extremamente violenta e que prolongou-se. Foi oferecido a Solano López sair do país e levar sua riqueza e ele não aceitou. Solano Lopez confiou que tinha um exército com muitos homens.

- Para você Solano Lopez foi um herói ou não ?
- Ele passou mais de dois anos estudando sobre a guerra, esteve na França e na Inglaterra, ele falava inglês e francês, ele nem era um louco nem sanguinário, nem socialista nem ditador. Ele foi eleito para um mandato, não deu um golpe para assumir. Ele é um homem do seu tempo, com ambições políticas e análises estratégicas e geo políticas equivocadas. Ele achava que o quantitativo de soldados era suficiente, sessenta mil soldados, mas eles marchavam a pé, o investimento em armamento não foi muito alto. No Paraguai ele é cultuado como grande herói e aqui, em grande parte  da historiografia brasileira, como um sanguinário que estabeleceu uma nação quase socialista. As duas versões pecam pelo excesso. 

FONTE: Rosa Aguiar

Rosa Aguiar
Rosa Aguiar
Jornalista
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